Primeiro mês como síndico: o que fazer nos 30 dias iniciais

Ninguém assume um condomínio sabendo. A eleição acontece, o antigo síndico entrega uma pasta e um molho
de chaves, e no dia seguinte alguém já está perguntando por que o portão da garagem está fazendo barulho.
O primeiro mês decide os dois anos seguintes — não porque é quando se resolvem os problemas, mas porque é
quando se descobre quais são.
Este é um roteiro de 30 dias. Ele cabe em algumas horas por semana e evita a situação mais comum do
síndico iniciante: chegar ao sexto mês ainda descobrindo coisas que já existiam quando ele assumiu.
Semana 1 — Receber, e receber por escrito
Antes de qualquer decisão, receba o prédio. Passagem de mandato feita de boca é a origem da maior parte
dos atritos entre síndico que sai e síndico que entra.
Os documentos:
– Convenção registrada e regimento interno, na versão vigente
– Atas das últimas assembleias — pelo menos as do último mandato
– Ata da sua eleição e posse
– Contratos ativos: elevador, portaria, limpeza, dedetização, jardim, seguro, manutenção de bombas e
portões
– Apólice do seguro do prédio e sua data de vencimento
– Laudos e certificados obrigatórios, com validade: incêndio, elevadores, para-raios, potabilidade da
água, o que o seu município exigir
– Prestação de contas e balancetes recentes
Os acessos:
– Contas bancárias e quem tem procuração — e o que precisa ser revogado
– Senhas e cadastros: concessionárias, prefeitura, sistema de portaria, câmeras, interfone
– Chaves e controles: quantos existem, quem tem cada um
E uma coisa simples que quase ninguém faz: peça ao síndico anterior uma lista do que ficou pendente,
com o que ele sabe sobre cada item. Não como cobrança — como transferência de conhecimento. A maioria
entrega de boa vontade, e o que está nessa lista costuma ser o que vai explodir no seu terceiro mês.
Assine um termo simples de recebimento, com a data e o que foi recebido. Protege os dois.
Semana 2 — Ande o prédio inteiro, principalmente onde ninguém vai
Esta é a semana que mais rende, e a que mais gente pula.
Um prédio não é o hall e os elevadores. Quando um sistema de administração condominial mapeou a operação
real de um edifício de 25 andares em Fortaleza, a planta operacional tinha 64 locais — e a maioria
deles não é lugar que morador nenhum vê: garagem do subsolo, pelotis, barrilete superior e inferior, casa
de máquinas, casa do gerador, shafts, quadro elétrico, cobertura, sala dos motoristas, copa dos
funcionários.
É lá que estão os problemas caros. Infiltração, corrosão, bomba no fim da vida, quadro elétrico
improvisado, escada de acesso enferrujada.
Peça ao zelador ou ao encarregado para te levar em todos. Leve o celular e fotografe tudo, mesmo o
que parecer normal — daqui a um ano, essas fotos são a linha de base que mostra o que piorou e o que foi
resolvido no seu mandato.
Anote, para cada ponto de atenção: onde é, o que você viu, e o quanto parece urgente. Sem
diagnóstico técnico ainda — isso vem depois, com quem entende.
Semana 3 — As pessoas e os contratos
A equipe. Converse individualmente com cada funcionário — porteiros, zelador, faxina. Quinze minutos
cada. Duas perguntas resolvem: “o que atrapalha o seu trabalho hoje?” e “o que você resolveria
primeiro se pudesse?”. Ninguém conhece as falhas do prédio melhor que quem trabalha nele todo dia, e
quase nunca alguém pergunta.
Confira o básico do trabalho: escala de cada um, dia de folga, quem cobre férias e falta, e como o ponto
é registrado. Escala descoberta e ponto malfeito são passivo — e são o tipo de problema que só aparece
depois, com valor.
Aquele mesmo prédio mantinha 463 registros de ponto e uma escala definida por função. Não era
burocracia: era a única forma de saber se o posto estava coberto na madrugada de domingo.
Os contratos. Monte uma tabela com uma linha por contrato: fornecedor, objeto, valor atual, data de
início, data de renovação e índice de reajuste.
Essa tabela vai te mostrar duas coisas no mesmo dia: qual contrato renova automaticamente daqui a poucas
semanas — e você tem pouco tempo para negociar — e qual valor subiu mais do que deveria nos últimos anos.
É o item de maior retorno por minuto gasto no primeiro mês.
Semana 4 — Contar o que é do condomínio
O inventário é a tarefa mais chata da lista e a que mais protege quem assume.
Ele resolve duas coisas ao mesmo tempo: o condomínio contra sumiço, e você na hora da prestação de
contas e da entrega do próximo mandato. Sem inventário na entrada, tudo o que faltar durante o seu
mandato é discussão aberta sobre quando sumiu.
O nível de detalhe correto é maior do que parece. No levantamento daquele prédio, o inventário da
brinquedoteca chegava a itens como “1 par de telefone de lata”, “2 petecas” e “1 jogo de equilibrista
com 32 peças” — cada um com local, categoria, quantidade, foto e estado de conservação (ótimo, bom,
regular, ruim).
Parece exagero até o dia em que alguém pergunta onde foi parar a caixa de som do salão.
Comece pelo que tem valor ou tende a sumir: equipamentos da academia, móveis das áreas comuns, ferramentas,
material de manutenção, extintores, itens do salão e da brinquedoteca. Foto de cada um, e o estado.
O estado é o que impede a discussão sobre se já estava quebrado.
Ainda na semana 4 — a primeira comunicação
Encerre o mês falando com o prédio. Curto, honesto, sem promessa:
- O que encontrei — em fatos, sem culpar o mandato anterior
- O que vou tratar primeiro, e por quê
- O que depende de assembleia e quando vai à pauta
- Como falar comigo, e qual o caminho para registrar uma solicitação
Esse último item vale mais do que parece. Definir um canal único no primeiro mês evita o que acontece com
quase todo síndico novo: pedido chegando por WhatsApp pessoal, bilhete na portaria, conversa no elevador
e mensagem no grupo — quatro filas, nenhuma delas com histórico, e a certeza de esquecer alguma.
O que NÃO fazer nos primeiros 30 dias
Não troque fornecedor antes de entender o contrato. Multa rescisória e serviço descoberto no meio da
troca custam mais que a economia prometida.
Não prometa obra. Você ainda não sabe o que o caixa suporta nem o que a assembleia aprova.
Não mude o regimento na primeira assembleia. Antes de mudar a regra, descubra se ela é ruim ou apenas
nunca foi aplicada. É diferente.
Não demita no impulso. Equipe de condomínio tem histórico, vínculo e passivo. Se houver problema real,
é assunto com apoio jurídico e contábil, não decisão de primeira semana.
Não centralize tudo em você. Síndico que vira o único caminho para qualquer coisa trava o prédio na
primeira viagem que fizer.
A partir do dia 31: instalar a cadência
Passado o diagnóstico, o trabalho de síndico vira ritmo. E o ritmo real de um prédio ativo tem camadas
bem definidas:
| Frequência | O que é |
|---|---|
| Duas vezes ao dia | leitura do medidor de energia |
| Diário | leitura de água · ponto de cada funcionário · registro das manutenções do dia · protocolo dos objetos que entraram |
| Por evento | reserva de área comum · ocorrência ou infração · entrada de prestador · obra identificada |
| Mensal | relatório de manutenção do período · consumo · fechamento do ponto · listagem atualizada para a portaria |
| Anual ou eventual | programação de obras · orçamentos comparados · inventário · renovação de contratos |
Naquele prédio, os números mostram uma operação de todo dia útil: 847 manutenções registradas — cerca
de 25 por mês, uma por dia de trabalho.
É esse volume que explica por que a memória não dá conta. Vinte e cinco pequenas coisas por mês, ao longo
de dois anos, são seiscentas coisas. Ninguém apresenta seiscentas coisas em uma assembleia lembrando.
E é por isso que a única regra que realmente importa no primeiro mês é a mais simples de todas:
Registre desde o primeiro dia. O síndico que começa a registrar no mês da prestação de contas está
reconstruindo memória. O que registrou desde o começo está organizando o que já existe.
Leia também
- Prestação de contas de condomínio: como não ser contestado
- Convenção ou regimento interno: qual manda em quê
O Chave Condo foi desenhado a partir de uma operação real como essa — a unidade como centro, com
proprietário, inquilino, demais moradores e veículos numa tela só; cada manutenção, ocorrência e item do
patrimônio ligado ao local exato, com data, responsável e foto. É o registro do primeiro dia virando a
prestação de contas do último.
Estamos abrindo as primeiras vagas. Fale com a gente.
Perguntas frequentes
O que o novo síndico deve receber do anterior?
Convenção e regimento vigentes, atas das últimas assembleias, a ata da própria posse, todos os contratos
ativos, apólice do seguro, laudos e certificados com validade, balancetes recentes, acesso às contas e
procurações, senhas dos cadastros e o controle de chaves. Peça também a lista do que ficou pendente — e
assine um termo de recebimento com data.
Por onde começar como síndico iniciante?
Pela visita completa ao prédio, incluindo os lugares que morador nenhum vê: subsolo, casa de máquinas,
casa do gerador, barrilete, shafts, quadro elétrico e cobertura. É onde estão os problemas caros.
Fotografe tudo, mesmo o que parece normal — essas fotos viram a linha de base do seu mandato.
Preciso fazer inventário do patrimônio do condomínio?
Sim, e de preferência logo na entrada. Ele protege o condomínio contra sumiço e protege você na prestação
de contas e na entrega do mandato: sem inventário inicial, tudo o que faltar depois vira discussão sobre
quando sumiu. Registre local, quantidade, foto e o estado de conservação de cada item.
O que um síndico não deve fazer no primeiro mês?
Trocar fornecedor antes de ler o contrato, prometer obra sem saber o que o caixa suporta, mudar o
regimento antes de descobrir se a regra é ruim ou só nunca foi aplicada, demitir no impulso e centralizar
tudo em si mesmo. O primeiro mês é para entender o prédio, não para provar serviço.